Tricotando com amor

Eu devia ter uns 20 anos quando, na varanda da casa da minha avó paterna, fui iniciada por ela na linda tradição dos trabalhos manuais. Com duas agulhas separadas e de plástico  – hoje prefiro o modelo circular e de madeira –  aprendi a navegar com elas nas ondas dos pontos. Já se passaram 12 anos e desde então,  já tricotei de tudo: cachecóis, faixas para o cabelo, pulôveres para mim e meu marido, toucas, bolsas, polainas,…, e quando descobri que seria mãe a produção aumentou: casaquinhos, toquinhas, calças, meias, ursinho, mantinha, vestido, saia, cachecol e por ai vai…

Já fazia vários meses que eu não tricotava mais nada. Estava muito focada no meu trabalho, que amo, porém senti que  minha atenção estava demasiada no campo do pensar, na cabeça. Ficava muitas horas no computador e este ritmo não estava me fazendo nada bem. Sentia um peso na cabeça, como se estivesse literalmente com a cabeça cheia de coisas, de ideias e coisas para fazer. Acordava cansada e sentia falta de um vazio interno (um vazio positivo), um silêncio mental, uma paz de espírito e mais conexão com o aqui e o agora.

 

Aconteceu então o momento da libertação: deixei tudo de lado – menos as crianças 🙂 – peguei um tricô começado já do ano passado, me sentei no chão do quarto das meninas e voltei a tricotar. Era a terapia que eu precisava! Tão relaxante, me trazendo para o corpo, esvaziando minha mente.

 

Tricô terapêutico

 

Sim, isso existe. Existem livros, médicos e terapeutas trabalhando desta maneira, reconhecendo o poder do tricô, crochê, e outros trabalhos manuais nos tratamentos de depressão e estresse. Cheguei a ler sobre um médico nos EUA que, antes de receitar antidepressivos, sugere aos pacientes algumas horinhas de tricô. Outros estudos mostram como os trabalhos manuais ou hobbies criativos nos deixam mais jovens. No Brasil conheço o lindo trabalho da terapia artística com base antroposófica, que segue esta linha.

Mesmo não sendo fácil no começo, o tricô exige repetição e treino. Através de movimentos recorrentes, voltando sempre para o mesmo lugar, repetindo a mesma série de pontos nos diferentes passos do tricô, esta atividade em muito se assemelha a uma meditação. É um mantra de pontos. Dois pra lá, dois pra cá… É uma dança onde os fios se movimentam num determinado ritmo e sequência.

O que eu acho interessante é que, por um lado o tricô auxilia no aumento da concentração e por outro, ele nos traz
mais para o corpo. O que acontece é uma harmonia entre corpo e mente durante e depois de tricotar. Se você conhece um pouco sobre a pedagogia Waldorf, deve ter percebido o espaço na carga horária dos alunos para práticas de trabalhos manuais. Meninos e meninas de diferentes idades fazem tricô, crochê, encadernação, pintura, cerâmica e outras atividades manuais.

Rudolf Steiner atribuía grande importância ao fato de “a criança saber que tem mão para trabalhar”. Sempre carreguei comigo uma de suas frases: “o cultivo de trabalhos manuais desse tipo torna o Homem hábil nos mais diferentes sentidos. Parece, em verdade, algo paradoxal, mas, no entanto, estou convencido de que ninguém pode ser um filósofo efetivo se não estiver em posição de, quando necessário, também cerzir suas meias ou consertar suas roupas“. (Ilkley 1923, 13ª palestra)

E o tricô na gestação?

Eu já tricotei muito para minhas filhas. A maior motivação era sempre na gestação. Tricotar algo novo, com uma lã de qualidade (nada de acrílico ou poliéster), numa linda composição de cores era uma forma de me conectar com meu bebê na barriga.

Além de poder ter vivenciado em mim os benefícios do tricô na gestação, pude ver os mesmos efeitos em muitas amigas minhas. Durante a primeira gestação nós morávamos numa cidade maior e a cada duas semanas me encontrava com algumas amigas, algumas gestantes outras não, e distribuídas nos sofás e chão da casa de uma delas, tricotávamos embebidas de chá, partilhando não só técnicas e receitas de tricô, mas também muita intimidade e sonhos.

 

 

Se tu ainda não estás convencida do poder do tricô, te dou mais alguns motivos para tricotar!

  1. Vejo muita gestante com uma grande dificuldade de se aquietar, de estar mais presente em seus corpos, diminuindo o volume dos pensamentos e aumentando a conexão com o corpo e o coração. O tricô, como já mencionei acima, te possibilita estes minutos de silêncio e de concentração.

 

  1. Logo logo teu bebê estará nos teus braços. Agora imagina teu bebê usando uma roupinha tricotada por ti, com todo teu amor! Quando eu estava grávida e tricotava algo para minhas filhas, costumava visualizar que cada um daqueles milhares de pontos eram feitos com todo meu amor. Eram pontos, laços de amor em forma de casaquinhos e touquinhas.

 

  1. Tricotar aumenta tua autoestima. Isso te surpreende? Como pode uma atividade tão simples realmente melhorar teu humor e aumentar tua autoestima? Mas me diz, quem não ficaria orgulhosa de si mesma ao terminar de tricotar um cachecol, por exemplo? Depois de tantos dias, ou semanas de dedicação, superando a frustração quando um ponto ou carreira saem errados, o sentimento é de glória, de vitória!

 

  1. Vejo em muitos círculos, muitas mulheres voltando a se conectar com saberes antigos e tradicionais. Eu e muitas amigas passamos a fazer nossos próprios sabonetes, a costurar nossas roupas, a plantar, a fazer pão… Os trabalhos manuais fazem parte deste resgate. Para mim isso é um ato revolucionário! Quando você vivência a experiência de passar meses dedicada a tricotar uma blusa, com certeza terá outros olhos ao se deparar com um vestuário vindo da China e feito com material de má qualidade. A consciência muda!

 

 

 

 

Os possíveis poréns

Não sabes tricotar? Tenho certeza que tua avó ficará muito feliz em ensinar-te esta prática antiga. Tenho certeza que ela tem várias histórias para contar dos tempos antigos dela.

É muito quente onde tu moras? Tudo bem, não precisas tricotar com fios quentes. Existem várias opções: algodão, linho, alpaca, lã de carneiro, seda. Só gostaria de te relembrar sobre a importância da qualidade do fio. Fios sintéticos, ou seja, feitos de acrílico ou poliéster, além de não serem bons para o meio ambiente, também não são nada bons para nossa pele. Dê preferência para um material de qualidade. Se você não encontra isso no comércio local, peça pela internet.

Te falta uma receita? Mais um ponto para a internet. Existem vários sites e canais no youtube que disponibilizam receitas e técnicas de tricô e crochê.

 

Agora tu não tens mais desculpas! Aproveita o inverno que já está à vista e dê assas à criatividade!

Bom divertimento no mundo das cores, texturas, cheiros e pontos!

 

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5 Responses

  1. Adriana Zimmermann

    É isso aí, o prazer de confeccionar algo com as próprias mãos é maravilhoso, é terapêutico e tbem pode ser uma renda extra no orçamento.

    • Barbara Zimmermann

      Com certeza! É juntar o útil ao agradável, né? 🙂

  2. furtdso linopv

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