Será loucura ou coragem?

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De repente o tempo passa a ter outra dimensão. A gente começa não só a usar as semanas como medida do tempo, como também a ver um véu em uma determinada época do calendário. É como se em nove meses, ou seis no meu caso atual, esse véu se abrisse e o que se iniciará a partir dali é pura incerteza. Não incerteza no sentido do medo – pode ser também – mas me refiro aqui ao planejamento ou aos breves devaneios que a mente tanto gosta de fazer sobre o futuro. Ah, que bom poder experienciar isso e pela terceira vez (ou quarta se contar com a breve gestação seguida de perda espontânea) poder dar uma pausa bem grande em quase tudo na minha vida.

A mente pira com isso, ôh se pira! “Mas e o trabalho? E o que vim plantando até aqui? Como organizar isso tudo estrategicamente bem para não ter muito prejuízo ou quem sabe até aumentar as possibilidades dos benefícios?”, diz essa vozinha manipuladora. É, a mente tenta calcular tudo nos mínimos detalhes: primeiro mestrado, depois casamento, x anos de experiência no mercado e lá pela metade dos 30 embarcar na maternidade, esta fase que jorra em toda mulher uma imensidade de hormônios femininos que é capaz de deixar qualquer uma maluca!!! Não estamos acostumadas com tanto hormônio feminino assim! SOCORRO!!! Se você acha que os cinco, sete dias de menstruação te deixam meio diferente, imagina esses cinco dias virando nove meses… Isso sem contar com o pós-parto e a amamentação que deixam teu cérebro feito uma ameba. Aqui na Alemanha a gente chama isso de “Stilldemenz”, demência da amamentação. Toda mulher que já amamentou sabe do que estou falando. A jornada é punk mesmo!

É preciso coragem para soltar o controle, para se permitir conhecer um outro lado nosso mas que às vezes parece ser tão desconhecido. É preciso coragem para escutar o coração e dizer um “sim, vamos nessa, vamos nos abrir física, emocional e espiritualmente para um (ou mais um) bebê chegar em nossas vidas”. Com isso não quero dizer que quem não tenha filhos ou não deu esse sim não tenha coragem. Eu falo da minha experiência atual e é como se estivesse precisando me dar um tapinha nas costas. Estou muito feliz em ser mãe de novo, era algo que queria, mas quando a água bate na bunda ai o negócio muda de figura e se torna real. Parece que vejo a razão querendo dobrar a esquina e me relembrando de que serei mãe de três crianças, de que seremos uma grande família, de que até agora não me enraizei 100% financeiramente e e e… Esse medinho vem chegando e sua ladainha não é pequena: “tais maluca?! Começar tudo de novo? Engordar, se dedicar dias e noites à fio, ficar com peito e barriga murchos, se sentir meio maluca numa rotina com crianças pequenas, não ter tempo para viajar e ver minhas amigas espalhadas pelo mundo…”

Pois é, só pode ser loucura mesmo.

Fora isso – como podia me esquecer? – tem o fato de ficar meses ou talvez um 1 ano e meio sem muito apetite sexual e ver que o relacionamento tem suas fases intensas de pura divisão de tarefas. É como se os laços de maternidade/paternidade fossem mais urgentes do que os laços amorosos. No meu caso a gente sabe que existe algo por trás de tudo isso, sabemos e sentimos que esse amor entre nós existe, mas sabemos também da intensidade e da enorme demanda das crianças pequenas. São fases onde vivemos uma troca de turno: eu fico com as crianças até x horas e tu faz tuas coisas (seja trabalho, esporte ou viagem), depois a gente troca. E tempo pra nós dois? A cama parece ter uma força magnética e antes da nove um dos dois já está roncando no meio das crias. Depois de um dia (um? Uns mil dias) intensos como esses às vezes não resta energia pra nenhum romantismo.

É, a rapadura é doce mas não é mole, diria meu pai.

Mas mesmo assim tem algo dentro de mim que diz um grande sim pra essa nova loucura, que se alegra de todo coração em saber que tem uma linda alma querendo nascer e que nos escolheu como mãe e pai dele(a). É uma grande responsabilidade, oh se é! Falo aqui num tom de brincadeira, mas embarcar nessa jornada materna é de muita seriedade! O negócio é tão sério que precisa de coragem mesmo. Mas o que seria de nós sem esses momentos de coragem? Como criar asas fortes sem começar a voar, mesmo achando que elas sejam pequenas, que ainda não estamos preparadas para o vôo? E quando estaremos?

Não temos garantia de nada, do sucesso profissional, da maternidade bonita e fácil, de que vamos amar incondicionalmente nossos filhos – e se não?, que mulher nunca pensou isso? A única certeza que temos é da intensidade da vida, seja ela com ou sem filhos. Se vivemos nos freando, bloqueando essa força criativa que pulsa e explode ocasionalmente (ou constantemente?) dentro de nós, perdemos essas chances de transformação, de viver com profundidade e de peito cheio. Qual o tamanho do meu sonho? Qual o tamanho do seu sonho? Talvez seja esse o medidor da intensidade das nossas vidas. E nesse brincar de intensidade não há espaço para os ideais. Eles até tentam se manter com toda força, mas ai vento (intenso) da vida nos derruba e vemos quanta ilusão estamos sustentado por causa do medo. É preciso ter coragem, ousadia e espontaneidade. É preciso conexão interna, respirar fundo e dar um passo no incerto.

É ter coragem para (re)nascer.

4 Respostas

  1. Incrível! Você e as palavras! Incrível incrível! Você descreveu tudo e detalhes do seu futuro lindo! E enriquecedor!

    • Barbara Zimmermann

      Oi Anne, obrigada pelas palavras.
      A vida é incrível mesmo, nao é? A maternidade tem me mostrado isso d i a r i a m e n t e – com suas belezas e desafios rsrs.

  2. Delicia de texto, Barbara! Quanta vida gostosa acontecendo!

    • Barbara Zimmermann

      Oi querida, só vi agora que tu me escreveu. Que delícia teu comentário também! 🙂 beijos

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