Meu relato de avó, sobre o parto domiciliar de minha filha.

postado em: parto | 6

Quando minha filha Bárbara anunciou sua segunda gravidez ficamos muito felizes, como todos os avós ficam. Logo depois do nascimento da Emilia (minha netinha mais velha), ela já havia dado sinais claros de que gostaria de fazer o parto do próximo bebê em casa. Até aí tudo bem – ou quase tudo bem, tendo em vista que venho de uma cultura onde o lugar da mulher ter bebê é no hospital sendo assistida por toda uma “estrutura” de médico, enfermeiras – pois caso necessário tanto ela quanto o bebê precisassem de atendimento, a estrutura está ali, disponível. Mas enfim, já estava decidido e nos restava rezar para tudo dar certo neste futuro parto domiciliar.

Aí veio uma surpresa ainda maior: minha filha me perguntou se eu queria participar do parto (!), dizendo que ficaria muito feliz se eu pudesse estar presente à ela no momento do nascimento do bebê. Na hora pensei que minha filha tinha perdido o juízo…

O que eu iria fazer lá? Eu não sou da área da saúde, nem ao menos tenho curso de primeiros socorros. Ver sangue? Só de pensar nisso já faltava o ar. Graças à Deus meus filhos são saudáveis e nunca precisaram de internação hospitalar, alias, nós nunca permitimos que eles nem entrassem no hospital para não correr o risco de pegar qualquer infecção hospitalar. E agora ela queria que eu assistisse ela parir, ver ela “sofrer” (pois esta era a minha visão sobre parto). Eu tive duas gestações e as duas foram cesarianas e não tive dor de parto (contração), nem consciência plena daquele momento.

Mas então, ela me fez o convite. Na hora eu disse que não sabia, desconversei dizendo que achava que isso não era pra mim, que talvez eu fosse mais atrapalhar que ajudar… Ainda perguntei a ela: “Você tem certeza do que está me pedindo? E o que o Rapha (seu marido) diz disso?

Passados uns dias, eu fui pensando. Tentava não imaginar minha filha parindo como vemos na televisão, sofrendo de dor ou imaginando que ela ou o bebê pudessem precisar de atendimento médico hospitalar.

Depois de alguns dias decidi que poderia sim participar do parto. Confesso  que não queria pensar muito a respeito e senti que aceitei o convite de uma forma meio “irresponsável” ou não muito pensada, pois juro que não sabia como iria contribuir com aquele momento! Só poderia dar força emocional pra ela, mas ao meu ver, isso não tinha muito sentido, tendo em vista que sou de um perfil mais racional. Mas eu pensei comigo, “se ela está me pedindo e eu sou sua mãe, não poderia dizer não neste momento. Se ela pediu é porque ela precisa de mim. Seja o que Deus quiser!“ E assim, aceitei.

Comuniquei então à minha familia sobre minha decisão. E nisso veio outro “obstáculo”,  minha mãe, avó da Bárbara, disse: “Se tu vais visitar a Bárbara na Alemanha, então eu também vou junto!“ Jesus! Ver minha filha parindo já era um grande processo de adaptação para esta nova realidade em minha vida, agora ter minha própria mãe nisso tudo, seria outro grande desafio. No que isso iria dar?

Foram alguns meses de “preparação” até o “grande momentoˮ. Nos três ou quatro meses que antecederam o parto, a Bárbara foi me passando alguns links para começar a ter uma idéia mais clara de como poderia ser aquele momento que estava por vir. Pois era uma realidade na qual eu desconhecia totalmente. De pouquinho em pouquinho ia conversando sobre isso também com a minha mãe pois a realidade dela foi igual a minha: na década de 1960, teve três gestações que finalizaram em três cesárias.

A previsão para o nascimento do bebê era o dia 04 de maio de 2015. Como ela mora na Alemanha, e não tínhamos como ir rápidinho até sua casa, então marcamos a passagem para vários dias antes da data prevista para o parto. Pegamos o vôo dia 26 de abril e nosso retorno estava marcado para dia 12 de junho (seis semanas), assim teríamos tempo pra ajudar no que fosse necessário, tanto antes como depois do parto. Teríamos tempo para curtir a Emilia (minha neta mais velha) e curtir o bebê recém-nascido.

Chegamos na casa da Bárbara, ela estava linda, plena – ela fica muito linda grávida, só vendo…! E então, como a natureza não nos dá uma data, esperamos, esperamos e esperamos. Foram dias de espera, dias de ansiedade que não podia ser transmitida para Bárbara que continuava esperando e confiando. Acordávamos de manhã e logo vinha o pensamento: será hoje?

Na madrugada do dia 22 de maio, às três horas da madrugada a Bárbara nos chamou. Ah, esqueci de mencionar que mesmo tentando me “preparar” para o momento, cheguei na casa da Bárbara sem saber de nada exatamente de como e onde aconteceria o parto. Eu também tinha receio de perguntar para ela como ela imaginava que seria aquele momento. Ela falava para eu confiar e que também não sabia exatamente como aconteceria. Só combinamos que eu não precisava ficar noites sem dormir imaginado que seria naquela  noite. Ela disse que ela iria me chamar se eu estivesse dormindo…Atéaté parece que era fácil para o coração de uma avó!

Então, voltando à madrugada do 22, ela chegou na porta do quarto e disse, “Mãe tá na hora, o bebê está vindo!ˮ Meu estômago contraiu na hora. Acordei num pulo, respirei, e fui. Que Deus nos abençoe!

Mas deu tudo tão certo, tudo aconteceu como se todos já fossemos experientes, o Rapha, eu, a minha mãe com seus 76 anos, a Emilia que é uma criança, na ocasião, com 3 anos. A Emília nos impressionou muito, assistiu ao parto todo de uma forma muito plena; ficou no mais absoluto silêncio, mas sem perder um minuto do que estava acontecendo. Ficou o tempo todo próxima da Bárbara, porém sem interferir no processo. Só observava, à tudo.E mais rápido do que eu pudesse ter imaginado, nasce às 4:24 da madrugada nosso bebê em um ambiente que estava,  por assim dizer, em completa harmonia esperando este novo serzinho. Mesmo já tendo passado 18 dias da data prevista de nascimento, tanto ela quanto a Bárbara estavam muito saudáveis e ela, a Luma, nasceu dentro da bolsa. A parteira que fez a ruptura, e ela nasceu perfeita, perfeita! – e aí pensei: “como Deus é generoso conosco!ˮ

Passados alguns minutos, ela já estava nos braços da Bárbara, e nisso minha mãe pergunta: “é menina ou menino?ˮ Estávamos  tão envolvidos naquela magia que esquecemos de olhar o sexo do bebê. A Bárbara abre a coberta e viu que era uma menina. Rimos todos felizes com este episódio.

Era uma magia que pairava ali naquele quarto, naquela madrugada. Éramos eu, minha mãe, minha filha, minha neta e mais uma neta que chegara! Cinco mulheres, quatro gerações… e o Rapha, como único homem no meio de tudo isso. E a parteira, claro!

O  que posso dizer para as mães que tem uma filha com as idéias parecidas com da minha filha?

Confiem e entreguem, pois tudo dará certo! Até porque se ela te fez o convite para também estar presente no parto dela, é porque ela sente o amor e a segurança emocional que tu podes dar a ela. Tu não és responsável pelo parto. Só estais ali para apoiar tua filha, no que  ela necessitar.

Amo de paixão minha neta mais velha Emilia, mas o momento que a Bárbara proporcionou no nascimento da minha segunda neta criou um laço diferente com ela, com a Luma Eu não consigo me expressar sobre esse sentimento, mas posso dizer que é diferente, como se nossas almas estivesem entrelaçadas de outra maneira.

Agradeço de todo meu coração à minha filha Bárbara e meu genro Raphael por terem me proporcionado esta marcante experiência.

 

Leia também a minha versão sobre minha experiência de parto: “Relato de parto sem dor: Luma, a luz por trás de todas as coisas”.

 

Veja também: Jornanda online Gestação Sagrada: um olhar mais cuidadoso e pleno da gestação.

6 Respostas

  1. Suzi Perini

    Lindo relato!!! Parabéns para essa linda família!

  2. Elizabeth Garzuze da Silva Araújo

    Bárbara querida! O relato da sua mãe me colocou em comunhão com “as cinco mulheres” que ela citou, ou seja vocês, mãe, filha, avó, bisavó, netas…. Chorei ao terminar a leitura. Imaginei a aflição da minha avó que não conseguiu assistir ao parto da minha mãe, quando eu nasci. Ela estava apenas a alguns degraus abaixo do quarto onde eu vim ao mundo e, ao contrário de você a minha mãe não queria que ela participasse. Porque ela queria ser a parteira. Sim eu nasci na casa dela e com parteira. Mas ela me contava sempre que subiu as escadas engatinhando porque estava em plena crise de asma, doença que a acompanhou por toada a vida. Querida Bárbara, agradeça à sua mãe por ter me trazido à lembrança, a partir do seu parto, o meu nascimento. Chorei de alegria por poder compartilhar com vocês, “as cinco mulheres” um momento tão sublime: a vinda a esse mundo de aprendizados. Um beijo enorme no seu coração linda e corajosa mulher: Bárbara! E muito grata por compartilhar a sua vida conosco. Um beijo também ao Rafa, à Emília, à Luma, à sua mãe e à sua avó.

    • Barbara Zimmermann

      Beth querida, que gostoso ler tua mensagem e teu relato. Essas memórias ficam guardadas num lugar muito íntimo nosso, não é? Eu também posso compreender tua mãe, mesmo não a tendo conhecido, pois a experiência do parto é algo muito forte – tu mesma sabes. E ter a nossa mãe ao nosso lado pode potencializar ou abrir espaço para outras dinâmicas, que dependendo do momento ou do desejo de cada uma, pode ou não ser desejado. Também pude me “transportar” para a cena do teu nascimento, com a tua avó na escada. Vou falar passar tua mensagem para minha mãe, sim, com certeza. Aliás, estes comentários deste post são na verdade para ela. Um grande beijo pra ti também querida Beth.

  3. Domilena Carvalho

    Que lindo relato! Estou aqui na internet há dias procurando relatos de avós e avôs no parto, pois minha mãe e meu pai ainda estão bastante inseguros, por achar que parto tem que ser no hospital… Mas eles serão fundamentais pra mim, primeiro para ajudar com nosso filho mais velho, afinal eu e meu marido estaremos ali envolvidos, recebendo a equipe e aguardando minha Maísa nascer, e também porque eles me darão segurança e apoio, mas se eles estiverem inseguros não será bom para o ambiente… então era desse relato que eu precisava rsrsrs encontrei um também sobre um avô que presenciou o parto da neta, relato também muito emocionante. Já passei para eles, espero que eles se empoderem junto comigo e fiquem seguros de que tudo dará certo e que eles serão importantes para mim, meu esposo e meus filhos nesse momento. Obrigada!!!

    • Barbara Zimmermann

      Oi Domilena, que bom saber que o relato da minha mãe pode te ajudar a inspirar e trazer um pouco mais de segurança para teus pais. Foi bem esse nosso intuito com o texto. Te desejo um parto lindo com todo apoio que necessitares!!! Que tudo flua bem para você, para Maísa, para teu filho mais velho e também para teus pais! Um beijo querida. Depois me conta como foi. 🙂

Deixe uma resposta