Maternando a mãe. Por uma nova cultura no pós-parto

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Fonte: Pixabay

Esses dias fui visitar uma amiga que tinha ganhado bebê há poucas semanas. Dessa vez não levei nenhum presente para o bebê. Levei presentes para mãe: uma cartinha escrita com amor, um livro inspirador na jornada da maternagem e um baita almoço, quentinho, orgânico e nutritivo. No almoço tinha desde salada de beterraba raladinha bem fininha – para ajudar no intestino dela; painço cozido – rico em ferro; legumes gratinados com creme de leite de castanha de caju e, de sobremesa, um ”bolo pós-parto“. Pensa em uma pessoa feliz ao me receber na porta do apartamento! Parecia ter visto o papai noel!

Ela se queixava de estar muito cansada, dormia pouco e estava cheia de dúvidas e inseguranças. Seu bebê também chorava bastante. “Eu não imaginava que seria tão difícil!“ – foi a primeira coisa que ela me falou quando nos acomodamos no sofá da sala. Aquela mulher independente, que sabia lidar bem com as coisas da vida, que decidia por si só o que, quando, onde e como faria, estava agora passando um baita sufoco! As primeiras semanas parecem, realmente, ser provas de fogo!

O pós-parto nem sempre é fácil, principalmente se durante a gestação a mulher não começou a diminuir seu ritmo, não recebeu informações e nem percebeu a necessidade de descansar e se cuidar – junto à isso conta também como foi a sua vivência no parto.

A situação na qual minha amiga se encontrava é muito comum hoje em dia entre as novas mães. Não posso dizer que antigamente as mulheres não sentiam dificuldades no pós-parto, mas existem questões centrais atuais aí – e que fazem enorme diferença: a falta de apoio e o isolamento da “mulher moderna”!

Antigamente, as pessoas viviam e se organizavam de maneira diferente, moravam em comunidades menores e havia um sentimento de pertencimento e ajuda mútuos. Quando uma jovem tinha bebê, uma rede de mulheres lhe auxiliava, mãe, tias, irmãs, primas, sogra, cunhada e amigas suas… Hoje em dia muitas de nós vivemos longe de nossos familiares e essa tradição de receber ajuda das mais velhas – e íntimas – foi se perdendo. Mesmo na cidade, rodeadas de amigas, muitas dizem que acreditam que elas não teriam tempo de ajudá-las.

 

O “tempo de resguardo”, de cuidado, no qual a marcha é lenta, normalmente não é levado com a devida atenção e parcimônia por muitas mães. É muito comum encontrar bebês de poucas semanas ainda em supermercados e shoppings! A mulher de hoje tem muita dificuldade de se aquietar e reconhecer a importância deste período, tanto para sua saúde física (seu corpo passou e passa ainda por fortes transformações) como para sua saúde emocional, e neste contexto também há o bebê – que acabou de nascer e precisa de todo acolhimento, constância e calma possíveis.

Sentimos uma pressão interna (muitas vezes motivada por aceite de padrões sociais externos) em “voltar a ser como éramos”, em “mostrar para o mundo que nosso corpo já voltou ao estado anterior”, e que “somos supermães” e damos conta do cabelo, da casa, do cachorro, do marido e do bebê – ah, e do trabalho também!

Mas, afinal, para que serve o pós-parto? São dias (dependendo da tradição varia entre 20 dias chegando até em 8 semanas – 56 dias) que valem ouro para a consolidação da relação mãe-bebê. São semanas em que a magnitude de toda a gestação e parto pode começar a ser vista – maturada – e ser dado início à formação da nova identidade desta família. É um novo capítulo na vida destes seres que se abre!

Um puerpério bem vivido faz uma enorme diferença na conexão, sintonia e vínculo entre mãe e bebê. Este interfere tanto na regeneração do corpo da mãe, quanto na amamentação e sentimento de bonding (união, contato) entre os dois. Negando-se a calmaria e o cuidado necessários, o sentimento de solidão, estresse, exaustão e má-alimentação acabam por ser, então, “pratos cheios“ para uma depressão pós-parto acontecer – sem falar do afetar negativamente a perspectiva do desenvolvimento do bebê.

 

Fonte: Heng Ou

Não precisamos voltar e viver como antigamente, porém, há muito no que se inspirar na sabedoria das mulheres do passado. Conectar-se com esses saberes pode ser essencial para uma gestação e pós-parto saudáveis, suaves e felizes.

A tradição indiana ayurvédica, por exemplo, traz detalhadamente instruções sobre alimentação, exercícios e meditações que auxiliam a mulher a se conectar consigo e a nutrir seu corpo com o que necessita nestes dias.

Uma alimentação adequada, preparada com amor e cuidado, nutre não só o corpo como a alma. Sendo a necessidade da mãe suprida, ela poderá acolher bem o seu bebê.

A tradição chinesa zuo yuezi é quase uma ciência por si, já que também prevê cuidados específicos para a nova mãe, auxiliando-lhe no reequilíbrio do corpo, dos hormônios e na produção de leite.

Visualize que todos esses cuidados nessas tradições não acontecem simplesmente “por si só” – há, sim, no backstage de todas elas mulheres que cozinham, limpam, arrumam, fazem-se presentes, montando um “mini céu“ – um paraíso – para a nova rainha poder cuidar de seu principezinho.

E mais importante do que a beterraba raladinha bem fininha é criar uma estrutura de apoio e cuidado para esta nova mãe. É deixá-la com companhia e sentindo-se pertencer. A companhia e presença de outras mulheres no auxílio do cuidar são os melhores ingredientes no pós-parto.

6 Responses

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